Inteligência Artificial faz arte? Ou: o Papa e a alma da máquina.

Estava prestes a escrever um post sobre IA, Arte e preconceito, quando fui surpreendido por um tweet do Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana:
Nesta era da inteligência artificial, torna-se urgente distinguir a arte humana daquilo que as máquinas produzem. Existe uma diferença ontológica, ainda antes de uma diferença estética, entre a arte e o que uma máquina pode gerar por meio de cálculos estatísticos baseados em milhões de imagens criadas por outros. Os algoritmos carecem da centelha da humanidade. Por essa razão, a Igreja deseja renovar uma aliança com os artistas e as instituições culturais para salvaguardar nossa humanidade.
Queria começar dizendo que IA é um tema difícil e complexo pra mim. Por um lado acompanho com receio e medo, muitas das notícias sobre esse tema e o comportamento das big techs, seja por seus aspectos políticos, sociais, legais e ambientais e a maneira com que esses bancos de dados foram raspados sem crédito, compensação ou consentimento. Mas paradoxalmente, por outro lado, a utilização das ferramentas e a ampliação das possibilidades criativas me deixa constantemente maravilhado. Hoje já posso dizer que me acostumei com a possibilidade de enxergar a minha imaginação, mas foi exatamente essa sensação que foi me trazendo até aqui desde a primeira vez que useiuma ferramenta de IA generativa em 2022.

Experimentando com o projeto do Carnavais Artificiais, sentia que aquilo expandia a percepção do meu entorno, enxergando novas conexões e compreendendo que aquilo poderia nascer, ao contrário de muitas das ideias e visões que tive ao longo da minha vida que não puderam ser feitas por uma variedade de motivos, seja tempo, dinheiro ou conhecimento técnico. Foi isso que me motivou a começar a ensinar, algo que eu talvez até tivesse esbarrado ao longo da minha vida, mas nunca tinha me jogado. E das talvez centenas de pessoas que já ensinei nos workshops de IA generativa nesses últimos anos, sinto que muitas passaram por uma experiência parecida, sejam profissionais do mercado de comunicação com décadas de experiência, ou jovens periféricos sedentos por dar forma ao que tem dentro da sua cabeça e do seu coração, mas que até aquele momento, não tinham encontrado os meios pra fazê-lo.
Esse é um dos pontos que mais me interessa no ensino da IA como uma ferramenta para ampliar a criatividade:
A DEMOCRATIZAÇÃO DA CAPACIDADE DE MATERIALIZAÇÃO DE IDEIAS E VISÕES.
Até então, só quem teve a oportunidade de dedicar milhares de horas para um ofício, e teve a sorte ou o também privilégio de conseguir ter acesso aos orçamentos e aos meios de produção e distribuição tinha sua voz amplificada. Apesar de ferramentas como o YouTube já terem ampliado significativamente esse acesso, e democratizado a distribuição, agora estamos falando de visões capazes de competir com grandes orçamentos pela atenção e mentes de uma audiência.
O vídeo do Neymar do futuro após a copa é um ótimo exemplo. Apesar de apresentar uma visão bem diferente da minha com relação ao “menino” Ney, seu criador (@nerdsoul.ai) encontrou uma maneira de dar vazão à sua ideia e arrebatou milhões de pessoas. Pode-se achar um vídeo bom, ruim ou cafona, mas o que não dá pra dizer é que o sentimento de quem fez ou de quem foi tocado por ele vale menos porque foi feito com IA.

Mas essa não é a primeira vez que a história do papa e da IA se cruzam. Quem não se lembra do famoso casaco do papa, uma das primeiras imagens de IA Generativa a furar a bolha dos que experimentavam com a tecnologia, surgindo justamente na semana em que o MidJourney suspendeu seus testes gratuitos (naquele momento a principal ferramenta capaz de criar imagens que parecessem reais)
E quando leio o tweet desse novo papa, obviamente entendo o seu ponto, e muitas vezes eu mesmo concordo com muitos dos argumentos do campo dos críticos da IA, mas o que eu definitivamente não concordo é que a presença da IA num processo retire de uma obra a possibilidade de ser arte
Talvez a pergunta mais produtiva não seja: “IA faz arte” e sim “Um ser humano pode fazer arte através da IA?”. Para responder a essa pergunta, gostaria de citar (mais uma vez, para os que acompanham meus pensamentos sobre o tema) a visão do escritor russo Tolstói sobre arte:
“Através da palavra se transmitem pensamentos; através da arte se transmitem sentimentos"
Qualquer coisa pode ser usada para transmitir sentimentos. Um mictório, tirado do seu contexto e transformado em “arte” por Marcel Duchamp é talvez um dos exemplos mais emblemáticos do quão longe pode chegar essa visão.

Outro ponto que talvez quem ataque IA não entenda (talvez por nunca ter usado uma ferramenta de IA generativa, ou ter usado apenas superficialmente) é que existe muito espaço para a autoralidade. Entendo que a maneira com que os sentimentos são transmitidos nas obras, passa por um alinhamento interno e pelas centenas e milhares de decisões que vão sendo tomadas ao longo do processo de criação. Ao escrever um texto, isso passa pela escolha das palavras, quando termina uma frase, quando um personagem termina de falar e quando começa outro. São essas micro-decisões que ao chegar em algum lugar, nos dão a sensação de que algo só existe porque a gente traçou aquele caminho entre o não existir e o existir. Sinto que é esse processo, junto com a intencionalidade (em diferentes graus de consciência) que faz com que as obras sejam capazes de armazenar nossos sentimentos.
E QUAL SERIA A BÚSSOLA DA SENSIBILIDADE DURANTE UM PROCESSO DE CRIAÇÃO COM IA GENERATIVA?
Segundo minha experiência, é a nossa capacidade de, ao lidar com essa “parceria criativa” que ela oferece, ir conduzindo esse caminho baseado no que aquilo está despertando em nós: “Isso ainda não está me tocando, deixa eu ir alterando até que passe a me tocar”. Programas como o MidJourney são um ótimo exemplo de uma interface construída para aumentar a possibilidade e a velocidade da conexão com a sensibilidade. Não por acaso, David Holz, o fundador do MidJourney, já foi comparado a Steve Jobs pela maneira como mistura tecnologia, visão de produto e sensibilidade estética.
O comentário do Papa, me parece que fala sobre a IA criando sozinha, não como uma ferramenta a serviço da criatividade e da expressão e nesse sentido eu também acredito que nós humanos devemos ser valorizados e protegidos.
EU TAMBÉM QUERO PROTEGER O HUMANO, SÓ QUE EU NÃO PROCURO A HUMANIDADE NA FERRAMENTA, MAS SIM EM QUEM ESTÁ USANDO ELA.
Mas talvez o que mais me surpreenda em muitos dos ataques ao que é produzido por IA generativa sejam os ataques de superioridade artística, dizendo que aquilo ali não tem valor, como se fosse intrinsecamente impuro, ou feito por gente sem talento. Como não havia essas mesmas camadas políticas na época do surgimento da fotografia, muitos dos ataques que ela sofreu do establishment das artes e da pintura eram dessa natureza. Da superioridade. Até aquele momento, pintores, muitas vezes de famílias já pertencentes ao ofício, dedicavam uma vida inteira para aprender a representar a realidade. Com o surgimento da fotografia, qualquer pessoa conseguia quase que instantaneamente, sem qualquer preparo, registrar a realidade. O que aconteceu com a pintura depois disso não foi o seu desaparecimento, e sim uma transformação profunda da sua relação com a representação da realidade, abrindo espaço para movimentos como o impressionismo (mais interessado na percepção e na sensação), o expressionismo (mais ligado à visão e à emoção individual), e o cubismo (que passou a desmontar e reconstruir a própria forma de enxergar o mundo).
Parte desse preconceito também vem de uma tendência de valorizar algo em função do esforço que aquilo levou para ser aprendido e no seu processo de fabricação. Como é possível algo tão simples ter algum valor? O comentário do poeta francês Baudelaire poderia muito bem ter sido um comentário em qualquer post que fale de IA:
“A indústria fotográfica é o refúgio de todos os pintores fracassados, mal dotados ou preguiçosos demais para completar seus estudos.”
Baudelaire achava que a fotografia devia servir à ciência e à documentação, mas não à arte. Muitas tecnologias criativas novas começam parecendo um atalho pra quem aprendeu com muito custo por um caminho antigo tortuoso. Quando a prensa de Gutemberg revolucionou a produção de livros no século XV, aconteceu algo muito parecido. Os monges copistas, responsáveis por laboriosamente desenharem os livros letra por letra e com ilustrações riquíssimas, ficaram ultrajados com o imediatismo e a vulgaridade do processo. Eles reclamavam de algo muito parecido com o “slop" medieval: livros baratos, dos erros dos impressores e do fato de que agora qualquer pessoa poderia ter acesso ao conhecimento. O frade dominicano Filippo de Strata foi um pouco mais direto:
“A pena é uma virgem; a imprensa, uma prostituta.”
Quem passou uma vida inteira aprendendo uma determinada técnica pode sentir que aquele percurso não deu só habilidade, mas também legitimidade, e quando aparece uma tecnologia que separa o resultado de dificuldade técnica, ela mexe não só no mercado, mas nessa hierarquia moral.
Não à toa, uma frase atribuída a um dos pintores mais emblemáticos da pintura pós-fotografia aponta uma solução para esse “imediatismo". Uma compradora teria questionado o valor alto de um desenho que Picasso havia feito para ela rapidamente:
“Madame, não levou dois minutos. Levou a vida inteira."
Na linhagem de reações contra o surgimento de novas tecnlogias, tivemos aqui no Brasil a emblemática “Marcha contra a guitarra elétrica" em 1967, com participações ilustres de Elis Regina, Gilberto Gil, Edu Lobo e Jair Rodrigues. Mais uma vez, aquilo não era só uma discussão sobre qualidade musical. A tecnologia trazia uma ideia de impureza, facilidade e ameaça àquilo que se entendia como autêntico.

Há também de se separar obviamente o mercado do meio. O mercado da pintura certamente foi muito afetado, assim como o mercado das orquestras também foi afetado com o surgimento da música gravada (duramente atacada pelos músicos da época). A pintura e a música como formas de expressão permanecem com sua relevância. E a música também oferece uma perspectiva interessante: hoje em dia, com a qualidade de reprodução de músicas gravadas, ainda se escolhe ter performers humanos, seja um DJ para tocar as reproduções ou músicos para performá-la ao vivo. Todo ser humano tocando música e recebendo para isso, é uma prova de que continuamos nos importando e valorizando o humano por trás de uma obra de arte.
VEJO ESSA QUESTÃO UM POUCO COMO A DIFERENÇA ENTRE UM DIAMANTE SINTÉTICO E UM DIAMANTE NATURAL.
Aparentemente são iguais, mas o diamante sintético não tem a história e a raridade dos milhões de anos necessários ao planeta para gerar aquilo, assim como a IA sozinha nunca terá a experiência de ter vivido aquilo que tenta expressar. Acompanhando de perto a evolução das ferramentas, eu não tenho dúvidas que muito em breve IAs sozinhas vão conseguir produzir conteúdo de alta qualidade e capazes de despertar sentimentos profundos em seres humanos, mas isso não faz a experiência humana perder valor. Talvez faça justamente o contrário e torne ainda mais importante saber quando existe uma experiência humana por trás de uma obra, seja usando IA ou qualquer outro meio de expressão.
Portanto não me interessa chegar a uma conclusão se uma inteligência artificial é capaz de fazer arte. Me interessa saber se um ser humano é capaz de usá-la para fazer arte. E depois de quatro anos usando essas ferramentas, não tenho a menor dúvida de que a resposta é sim.




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