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Pedro Garcia de Moura

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“Janones Guevara” ou: o Brasil é a maior potência digital humana do mundo

Foto do escritor: pepegarcia
pepegarcia
há 12 horas
2 min de leitura


O Orkut já era parte da nossa realidade quando fui morar em Londres em 2004. Alguns anos depois começou por lá a febre do Facebook e eu com aquela sensação de déjà-vu, que normalmente acontece no outro sentido. O que acontece nos países ricos, algum tempo depois acaba sendo adotado aqui no Brasil, seja na moda, no entretenimento ou nos costumes.


Depois foi o #MeuPrimeiroAssédio, que em 2015 antecipou em dois anos a repercussão mundial do #MeToo. Pegue qualquer rede social, e os brasileiros estarão por lá, provavelmente criando usos que a própria plataforma não previu. É como se o mesmo despudor carnavalesco de ocupar as ruas nos desse liberdade para invadir a praça digital e fazer dela uma coisa nossa.


Essa eleição não só confirmou essa visão como me encheu de esperança. Vi essa capacidade de ocupar as redes ganhar coordenação. A sensação de estarmos lutando contra o megazord do Vale do Silício e do Vale da Milícia (como bem descreveu o Gregório Duvivier), com big techs, bets, milícias, bilionários e a nova onda imperialista do governo americano, era de enfrentar forças muito maiores do que as nossas. Só que nossa batalha era no campo digital, justamente onde somos os melhores do mundo.


Antigamente as ferramentas de manipulação em massa dependiam mais dos meios de comunicação tradicionais e/ou de campanhas de psyop (operações psicológicas) estatais e militares. Com a coleta de dados e o microtargeting de campanhas, capazes de direcionar anúncios a públicos muito específicos, essa manipulação ganhou novas possibilidades de alcance e precisão. A extrema-direita soube explorar esse terreno e o escândalo da Cambridge Analytica tornou esses mecanismos conhecidos globalmente.


Até então, eu nunca tinha visto uma resposta organizada a essa instrumentalização das redes que me desse tanta esperança. O Brasil conseguiu se organizar para lutar com os bots e formar um exército de “bots humanos”: pessoas reais agindo de forma coordenada, com ações em sites de busca e postagens nas principais redes para disputar a conversa dentro de plataformas que se alimentam também do engajamento de ódio, o chamado rage bait.


É aí que entra Janones, o agitador mineiro que ajudou a coordenar essa mobilização com seu exército de mais de 10 milhões de soldados no WhatsApp. E que pode vir a se tornar uma espécie de Che Guevara do século XXI, não pela idealização de sua figura, mas pela possibilidade de compartilhar uma prática de resistência com o continente. Se essa experiência puder servir a outros países, estaremos mais uma vez invertendo o caminho que me surpreendeu em Londres. Dessa vez, exportando nossa maneira de ocupar a praça digital para resistir às invasões digitais.

 
 
 

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