top of page

ome
T emporario

​´
Add

Pedro Garcia de Moura

div4_bVD.png

Trecho do livro "Emoção Criativa" sobre Expressão e Coragem (Parte I)

Foto do escritor: pepegarcia
pepegarcia
há 3 dias
4 min de leitura

Quando falamos de expressão verdadeira, estamos falando de exposição. De se expor de verdade. Praticamente se desnudar, sem proteção que nos impeça de ser julgados. Neil Gaiman (1960–), autor e escritor inglês, convidado para apresentar-se em uma cerimônia de formatura da University of the Arts, na Filadélfia, fez um discurso tocante que virou um livrinho simpático intitulado Faça Boa Arte em parceria com o designer gráfico Chip Kidd (1964–). Nele, Gaiman externa sua visão sobre a coragem de se expor.

“(...) [existe um] momento em que você sente que está andando pela rua pelado, expondo demasiadamente o seu coração e sua mente e o que existe no seu interior, mostrando muito de você mesmo. Esse é o momento em que você pode estar começando a entender como fazer as coisas bem.”


É um pouco como se jogar no espaço sem asas e sem rede de proteção. Como se declarar para alguém sem saber que reação esperar. É o famoso frio na barriga. O designer gráfico austríaco Stefan Sagmeister (1962-) criou o documentário The Happy Film (2016) no qual reflete sobre as conexões entre trabalho e felicidade, partindo de uma premissa que me pareceu inspirada. Ele resolve passar por diversas experiências que lhe causavam medo e frio na barriga, pois achava que era o medo que o impedia de ser feliz. Um de seus medos, no caso, era pedir o telefone de mulheres aleatórias na rua para marcar um encontro (algo que provavelmente evitaria fazer hoje em dia). Ele escolhe a dedo essas situações que o fazem sentir borboletas no estômago e decide enfrentá-las.

PERGUNTA III

O que faz você ter frio na barriga?

Coragem é algo muito subjetivo. O que para uns é fácil, para outros é extremamente desafiador. Para uma pessoa, ter que se impor numa conversa em que é questionada pode ser um grande desafio, no entanto, se demitir de um emprego que lhe paga bem é algo que ela pode fazer sem pensar duas vezes. Já para uma outra, que não tem dificuldades para discutir e argumentar sob pressão, pode ser paralisante abrir mão de um trabalho, pois seria uma decisão sem volta.

PERGUNTA IV

Qual foi a coisa mais corajosa que você fez?


Esta, assim como todas as perguntas do livro, diz muito sobre nós e pode render insumos interessantes na exploração artística e criativa. No caso da coragem, é possível aproveitar algo em que já somos corajosos e direcionar nossa produção neste sentido. Ou podemos exercitar nossos medos de maneira controlada em um conto, em uma pintura ou em uma performance de dança.

Nossos medos e inseguranças não são poucos, e nem sempre são os mesmos ao longo da vida, mas, quando refletimos sobre o significado da palavra “coragem” no âmbito artístico, sua origem fica mais evidente.

coeur (coração) + age (agir)

O poema Mapa (1930), de Murilo Mendes (1901–1975), abre com uma forte descrição de suas limitações:

“Me colaram no tempo, me puseramuma alma viva e um corpo desconjuntado. Estoulimitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação”

Em uma tirinha do cartunista argentino Liniers (1973–), autor da série Macanudo, um pintor que imagina ter em torno de si meia dúzia de pequenos seres coloridos, fofos e mal-encarados, treme em frente a uma tela em branco antes de usar o pincel. A legenda diz:

“As inseguranças de Feldman fazem com que na hora de pintar, as coisas fiquem meio difíceis. No entanto, Feldman consegue. Um herói.”

Macanudo (Liniers)

Vencer nossos medos, que parecem ter sido feitos sob medida para nós, é, sem dúvida, um dos grandes desafios da vida. Estamos todos limitados de alguma maneira ou de outra, por isso é uma luta tão complexa.

Viktor Frankl, com sua profunda experiência em sofrimento adquirida nos campos de concentração, tem uma visão sobre a subjetividade dele em relação ao seu tamanho real e o espaço que ocupa dentro de nós, que poderia ser perfeitamente utilizada para nossos medos.

“Assim como determinada quantidade de gás preenche um espaço oco sempre de modo uniforme e integral, não importando as dimensões desse espaço, o sofrimento ocupa toda a alma da pessoa humana, o consciente humano, seja grande ou pequeno este sofrimento. Daí resulta que o ‘tamanho’ do sofrimento humano é algo bem relativo.”

É natural que parte desse medo seja resultado da pressão coletiva para permanecer numa postura estática de não enfrentamento. É a famosa metáfora do balde cheio de caranguejos. Sempre que um caranguejo tenta sair do balde, os outros o puxam de volta com suas garras ensandecidas.

E isso pode ser algo que não necessariamente é consciente ou mal-intencionado. Uma amiga que estava fazendo uma dieta e já havia emagrecido bastante me contou que chegou um ponto em que amigos ficavam lhe oferecendo doces o tempo todo. Uma mudança em pessoas próximas pode nos deixar inseguros de perder quem conhecemos.

Já o escritor Rubem Fonseca (1925–2020) tem uma visão um pouco mais corrosiva, como muitas de suas obras:

“O sucesso sempre incomoda os medíocres ambiciosos, os sonhadores incapazes e os fracassados em geral.”

Quem nunca sentiu inveja de alguém bem-sucedido que repita essa frase impunemente. E essa inveja também é uma ótima linha de investigação sobre o que reprimimos dentro de nós.


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
O viés da dor na Inteligência Artificial

Conversando com Lígia (minha namorada que é atriz, escritora e mãe de duas adolescentes) sobre o desabrochar do amor na adolescência e da loteria que é ser ou não correspondido, me lembrei de um poema

 
 
 

Comentários


substack.png

ASSINE A NEWSLETTER

bottom of page