Trecho do livro "Emoção Criativa" sobre Expressão e Coragem (Parte II)
PERGUNTA V
De quem você tem inveja?
Quais são as características em comum entre as pessoas de quem você tem inveja? Será que isso variou ao longo da vida? Muitas vezes invejamos algo que achamos não ter capacidade para fazer, ou que reprimimos de alguma maneira. A inveja pode surgir quando percebemos que alguém supera algo que tememos, mas que, por dogmas ou preconceitos, nos impedimos de enfrentar.
Zuenir Ventura, (1931–) em seu livro Mal Secreto (1998) sobre a inveja, esmiúça o mais silencioso dos pecados capitais e é uma ótima leitura para quem quiser se aprofundar no tema. Ele apresenta a teoria da proximidade, que diz que só sentimos inveja de quem está próximo de nós. Não costumamos sentir inveja de alguém que está muito acima da categoria na qual percebemos estar, como, por exemplo, celebridades (a não ser que você seja uma). Isso significa que, no mínimo, nossa inveja pode revelar a qual balde de caranguejos temos a sensação de pertencer.
A inveja e a frustração podem ser paralisantes, fontes intermináveis de justificativas para não seguirmos adiante com nossas explorações. Sêneca (4a.C.–65d.C.), o filósofo grego que foi tutor do jovem imperador romano Nero (37d.C.–68d.C.) (um dos exemplos arquetípicos históricos de raiva e destruição), talvez tenha aprendido, ao conviver com o intempestivo imperador, como encarar as frustrações. Sêneca explica que a fonte delas vem da surpresa. Se você sabe que algo já é esperado, não deve existir raiva ou frustração. Imagine um estrangeiro indo morar na Índia na época das chuvas de monções e que, todo dia, ao fim da tarde, fica irritado porque está chovendo. Talvez, quando imaginamos a grandiosidade da natureza, seja mais fácil perceber o quão inútil é tentar controlar tudo ao nosso redor.
O medo também pode vir de nossa imaginação, uma ferramenta poderosíssima que nos permite combinar e recombinar todos os estímulos e ideias que fazem parte de nosso repertório, mas que pode ser um feroz inimigo. Sêneca também tem uma observação pertinente sobre esse lado destrutivo:
“Nós somos mais frequentemente assustados do que feridos, e sofremos mais com a imaginação do que com a realidade.”
Ou seja, a mesma imaginação que pode criar também pode destruir. Quantas vezes imaginamos o resultado de alguma crítica muito maior do que ela própria? É como diz aquela frase atribuída a Luis Fernando Veríssimo (1936–) – a segunda pessoa com mais frases falsamente disseminadas depois da escritora Clarice Lispector (1920–1977) – e que, como boa frase possivelmente falsa, tem algo a ver com o humor e leveza do escritor gaúcho, mas, até que essa autoria seja confirmada por fonte segura, considero apenas uma boa frase anônima.
“A única pessoa livre é aquela que não tem medo do ridículo.”
O medo de errar e de ser julgado é a maior trava para a fluidez do processo criativo. Só se aprende a voar ao lançar-se no espaço e, a cada pequena decisão no ato de criar algo novo, podemos ir na direção da nossa verdade e individualidade ou cair na mesmice, nas fórmulas e nos padrões que esperam de nós.
Depois que algo é criado, ainda é preciso coragem para mostrar a obra, para colocá-la no mundo e, principalmente, para lidar com críticas e mesmo inveja, mas, ainda que sejam esses justamente os seus receios, é muito mais importante permitir o processo criativo fluir livremente primeiro e, depois, entender como mostrar seu resultado.
Existem várias estratégias capazes de auxiliar no processo de expor uma criação, desde lançar mão de um alter ego ou de um pseudônimo, até incluir parceiros que possam contribuir e com quem dividir essa obra. Um compositor pode chamar alguém para interpretar suas canções, ou um produtor musical para ajudar com a sonoridade das mesmas.
Não é à toa que máscaras são um artifício artístico e de sobrevivência tão imprescindível na sociedade. Os gregos já eram obcecados por elas em suas peças de teatro. O escritor francês François de La Rochefoucauld (1613–1680), no entanto, aponta para os perigos desse hábito:
“Estamos tão acostumados a nos disfarçar para os outros, que no fim nos disfarçamos de nós mesmos.”
Já o dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854–1900) tem uma visão que pode ser interpretada tanto para o bem quanto para o mal que elas causam:
“Dê ao homem uma máscara e ele se tornará quem realmente é.”
O problema da máscara é quando ela é usada como uma ilusão para se enganar, ao invés de ser uma fantasia que permite uma pessoa se descobrir. É importante saber quem somos por trás das máscaras, para que possamos vesti-las quando quisermos – algo extremamente necessário para viver em sociedade – ao invés de nos fundirmos com elas.
Eu mesmo sou um adepto da máscara no processo criativo - o trabalho do Cartiê Bressão começou com uma. Foi fantasiado de Jorge Tadeu, o fotógrafo conquistador interpretado pelo ator e cantor Fábio Júnior na novela de televisão Pedra Sobre Pedra (1992), num bloco de rua do carnaval do Rio de Janeiro, que eu consegui me despir dos pudores de abordar pessoas para fotografá-las. Até então, minha relação com fotografia vinha da minha formação com Design Gráfico, mais preocupada com a composição visual, e não com os sentimentos e pessoas.
O pseudônimo não deixa de ser uma ajuda ao criar um projeto para protegê-lo de críticas. Muitas vezes recomendo que determinados exercícios artísticos sejam feitos sem a pressão de serem mostrados para ninguém, ou que se utilize um pseudônimo. Para quem enfrenta essa dificuldade de se mostrar, esse artifício concede o luxo de experimentar o que é não se importar com o que os outros dizem.
PERGUNTA VI
O que você costuma usar em festas à fantasia ou no carnaval?
Muitas pessoas me dizem em relação a essa pergunta que escolhem a fantasia sem pensar, mas o simples fato de aceitar vesti-la já é um aval de que você aceita ser visto com ela.
O livro Jazz (1947) do artista francês Henri Matisse (1869–1954), feito com recortes, em sua velhice, quando ele já não podia mais pintar, é cheio de pepitas de sabedoria. Ele conta que admira muito os trabalhos produzidos na época de ouro da arte japonesa, e que era comum os artistas irem mudando de nome ao longo da carreira, para não se deixarem levar pela fama e pelos trabalhos já feitos. Este pode ser um artifício sensacional como exercício de constante reconexão com a própria essência, e uma maneira de usar a máscara como ferramenta de autoconhecimento.
A arte é uma fonte de coragem. Se puder, leia o poema completo Still I Rise, da poeta americana, escritora e ativista de direitos civis Maya Angelou (1928–2014). Veja aqui a primeira e a última estrofe traduzidas por Francesca Angiolillo:
“Você pode me inscrever na história
Com as mentiras amargas que contar
Você pode me arrastar no pó,
Ainda assim, como pó, vou me levantar
(...)
Das choças dessa história escandalosa
Eu me levanto
De um passado que se ancora doloroso
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e irrequieto
Indo e vindo contra as marés eu me elevo
Esquecendo noites de terror e medo
Eu me levanto
Numa luz incomumente clara de manhã cedo
Eu me levanto
Trazendo os dons dos meus antepassados
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto”
*
Emoção Criativa (Amazon)


Comentários